Sexta-feira, 17 de Junho de 2005

Lendo hoje alguns artigos de opinião de uma escritora que prezo muito, deparei-me com um que me chamou especialmente a atenção... compartilho-o agora aqui...

«A inércia é, a par da inveja, um dos maiores e mais graves defeitos da índole falsamente branda dos portugueses» (o próprio título, por contêr o seu quê de verdade, não me deixou indiferente)

Cada vez que uma criança é assassinada por familiares, os meios de comunicação agitam-se, reúnem esforços e audiências e ensaiam o papel das instituições envolvidas neste tipo de processos, investigando ao mesmo tempo que tentam apurar responsabilidades, conduzindo o país a uma onda de histeria que provoca reacções acesas, carpideiras voluntárias e uma vontade súbita e inconsistente de mudar o mundo.

Todos nos lembramos da chocante notícia do desaparecimento da Joana cujo corpo nunca chegou sequer a ser encontrado; assistimos durante semanas a inúmeras reportagens sobre a família, os vizinhos, todo o universo que rodeava a vida desta criança, assassinada pela própria mãe. E depois, a pouco e pouco, deixámos de ouvir notícias do caso Joana e a vida fez-nos esquecer o horror. A vida é mesmo assim, os dias vão-se literalmente devorando uns aos outros, cada um de nós tem os seus problemas para resolver e nunca são fáceis nem poucos, por isso deixamo-nos ir e preferimos esquecer aquilo que não podemos mudar, cultivando a omissão como forma de sobrevivência, porque é muito mais fácil encolher os ombros do que arregaçar as mangas.

E, no entanto, quantos entre nós não conhecemos situações de violência continuada na porta ao lado da nossa, na nossa rua, no bairro onde vivemos? A violência doméstica infligida tanto a adultos como a crianças faz de tal forma parte da vida que acaba muitas vezes por nos passar ao lado. Muitos de nós fomos vítimas de violência quando éramos crianças e mesmo quem escapou, conhece histórias de amigos, primos, vizinhos e colegas de carteira que sofreram maus tratos de vária ordem.

Quando trabalhei como repórter na RTP entrevistei inúmeras crianças em bairros de risco e uma delas respondeu-me com o ar mais natural do mundo que o pai, que o sovava todos os dias, lhe dizia que aquilo era o sumo de laranja, fazia bem à saúde se fosse dado diariamente. Num bairro degradado da margem sul entrevistei uma mulher que vivia aterrorizada com o seu companheiro porque este a sovava com frequência, enquanto suspeitava que lhe envenenara a filha de ambos, quando a criança tinha seis meses:
"Ele trouxe um leite novo para a bebé, disse para eu lhe dar aquele leite e a menina começou a ficar com diarreia e morreu menos de uma semana depois."Ignoro o que aconteceu ao rapaz que me contou a história do sumo de laranja e se a mulher sobreviveu aos maus tratos do seu companheiro. O mais provável é que este rapaz continue a viver no mesmo bairro, nunca se tenha virado contra o pai e que aplique o mesmo tipo de tratamento aos seus filhos, caso os tenha, não por maldade, mas por ignorância, porque é sempre mais fácil repetir o que conhecemos do que tentar viver de uma forma desconhecida e diferente.

A inércia é, a par com a inveja, um dos maiores e mais graves defeitos da índole falsamente branda dos portugueses. O deixa andar como modo de vida instalou-se na população e tomou conta de todos nós. É mais fácil esquecer, omitir, ignorar, passar à frente, tal como fazem as avestruzes que enterram a cabeça na areia quando não querem ver a realidade. O que as pessoas ainda não perceberam é que, com esta forma de ser e de estar não só permitimos que quem age mal continue a agir impunemente como estamos a incentivar esse tipo de comportamentos.
Alguém disse um dia que os adultos são como as crianças, só vão até onde os deixam ir e se não fizermos nada pelos outros não podemos exigir que um dia alguém faça alguma coisa por nós. Não podemos continuar de braços cruzados, é preciso reagir, começando dentro da nossa própria casa antes de denunciar o que se passa na porta ao lado, na mesma rua, no nosso bairro, ou o sumo de limão tornar-se-á cada vez mais ácido e insuportável. (MRP)
publicado por planetamercuryii às 14:59
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